Vida, breve retrospecto

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Não sei bem ao certo quando eu nasci. Talvez eu até me confunda com o tempo, pois eu nunca sei se ele está indo ou voltando. Porém, lembro-me bem dos corpos que tomei. Andei um tempo com uma galerinha do mal, mas tinha um tal de Rex, de braços curtos e de boca gigante que era muito mala e deixei o grupo.

Fui então andar com um povo que se alimentava de sangue, mas eu achava a prática nojenta, pois muitos dos líquidos perdiam ligeiramente o vermelho vivo e se tornavam ainda mais rápido pastosos. Em vez de beber tínhamos que comer como se fossem pudins. Também me cansei e fui embora.

Andando pelo mundo conheci um povo bacana. Com este pessoal era festa na floresta todo dia. A gente corria, caça e uivava para a Lua. Era um povo sem preconceitos, mas eu detestava pêlos e andar como um quadrúpede me causava uma dor terrível na coluna. Despedi-me e até pouco tempo eu ainda os visitava.

Decidi subir o morro. Demorei a me acostumar com o ar rarefeito, mas era legal ser gigante e morar na neve. O povo era bem unido e me adorava. Eu fui bem aceito, em razão das credenciais apresentadas. Vivi com eles por uns trezentos anos. Mas acabei achando que poderia ter algo mais interessante para fazer. Cansei-me de comer peixes.

Com grande tédio fiz uma investida e deu certo. Habitei por dois séculos em uma caverna. Conseguia voar e sentir liberdade. Mas não tinha amigos. Eu até brinco que nestes tempos eu poderia ter escritos livros de auto-ajuda, mas Gutenberg ainda não viera ao mundo. Acabei sentido tédio. Além do que soltar fogo pela boca e fumaça pelas narinas causava uma dor terrível no estômago.

Passada esta época fui morar numa grande porção de água, que mais tarde chamariam de mar. Alimentava-me dos meus semelhantes menores, mas não tinha admiradores. Nesta época a minha paciência era curta. Coisa da espécie. Me chamavam de martelo. Eu só não atacava as baleias, alguma coisa relacionada ao juízo. Também morrer para mim não seria possível, mas sentir dor é terrível. Nessas horas é difícil sair da casca, porque faltam as forças.

Nesse período encontrei um povo menor do que os gigantes das neves, mas em muito parecidos com eles. Também caçavam, moravam em cavernas e desenhavam nas paredes. Todo diálogo era por gestos e sons. Acredito que a linguagem falada ainda não estava desenvolvida.

Certo dia eu com princípio de tédio peguei duas pedras e comecei a bater uma na outra. Para a minha surpresa elas se esquentaram e quando começaram a queimar as minhas mãos eu as joguei, como o tempo estava seco e as pedras caíram num monte de palha chamas amareladas e alaranjadas apareceram. Foi um momento de grande apreensão para o grupo, tiveram medo de mim e eu tive que deixar o convívio.

Perambulando por aqui e por ai me deparei com um homem verde, achei meio estranho e como não o conhecia, mas estava sem mais nada interessante para fazer decidi me tornar igual a ele. Ah! Se arrependimento valesse algum dinheiro! Acabei por entrar naquela espécie de laranja grande, que no começo achei que era sua casa, só percebi a roubada quando a máquina saltou para os ares Fui parar muito longe de tudo e de todos que eu conhecia. Definitivamente não estava gostando e tudo piorou quando chegamos ao local onde existiam bilhões iguais a este homem verde.

É claro que lá tomei um corpo semelhante ao do meu anfitrião, mas logo souberam que eu não era da espécie. Fomos recebidos como heróis. Apresentei-me e o chefe permitiu que eu ficasse. A adaptação não foi possível e só consegui retornar para a Terra alguns séculos depois. A laranja havia evoluído, pois agora voltamos num pastel metálico cheio de luzes. Agradeci a oportunidade e coloquei-me a disposição para futura e eventual ajuda. Lá eu gostava de observar as estrelas, que eram muito próximas, tal como as nuvens são nos dias de hoje.

Outra vez estava sozinho. Fui procurar onde ficar, me lembrava de tantos lugares em que havia ficado ou conhecido, mas nenhum deles me despertava interesse para regressar. Então fui adiante e me encontrei com um povo que caminhava falando em salvação de um dos corpos dos homens. Acreditavam em um mundo espiritual, em uma morada eterna e na paz. Pela primeira vez pensei sobre quem eu era, de onde havia surgido e para onde estava indo.

Não permaneci com este povo, pois logo houve mortes. Mas ouvi e participei de muitas guerras em defesa daqueles ideais. Muitos anos depois chamaram aquelas guerras de Cruzadas. Nessa época eu não sabia que o anjo que fazia terminar uma existência para começar outra se chamava morte. Pois para mim tal anjo jamais se apresentara.

Cansado da lida, sem prazeres maiores ou novidades decidi ir ao encontro da tranquilidade. Nada me surpreendia, fui então para uma ilha. Lá meditei por algumas décadas.

Passado mais um tempo me retirei e vivi num mosteiro como um homem recluso. Fazia o que todos faziam. Comecei a enxergar cores e pessoas de vários corpos. Neste local me explicaram sobre a morte. Um papo muito louco sobre deixar de existir. Achei graça, mas não contei sobre as minhas peculiaridades. Fiquei com medo de não acreditarem. Sempre vivi como quis e achei que todo mundo fosse assim. Sei lá, nunca havia pensado a respeito.

Depois de duzentos e cinquenta anos naquele mosteiro eu decidi que era hora de conhecer outros ares e vim parar no meio de um povo, semelhante a todos os homens que eu havia conhecido durante minha caminhada, mas eles tinham uma alegria diferente. Eles pescavam, caçavam e usavam umas folhas para esconderem suas partes íntimas.

Moravam em casas engraçadas com telhado feito de sapé. Ali senti realmente prazer. Era liberdade pura. Manejava arco e flecha muito bem e sempre tinha festa. Até que um belo apareceu um povo estranho, daqueles que usava pano até na cabeça. Eram pálidos, pareciam constantemente doentes. Mudaram nossas vidas e tudo o que era legal deixou de ser. Mais tarde vim saber que eram colonizadores portugueses. Outra vez fui embora.

Andei um tempo até achar um cara maluco, que pregava uma eugenia. Dizia detestar judeus, que me explicaram era uma raça, um povo ou uma etnia. De imediato detestei o ambiente e partir para outras bandas.

Andando para lá e para cá, sem muita inspiração da direção a seguir me apareceu um ser transparente, com grandes asas. Dos seus olhos nasciam luzes. O seu cabelo era semelhante ao brilho do sol refletido na água e a sua cor era negra como a noite sem luar. Sua voz me comoveu e ele me disse: “Aonde vai pobre criatura?”. Eu que nunca, enquanto fora dos grupos, havia sido interpelado nestes milênios me espantei com alguém me dirigindo a palavra. Até pensei que deveria ser o homem verde que voltara em seu grande pastel cheio de luzes coloridas. Respondi dizendo que ia por ai e ele me fez uma revelação perturbadora.

Explicou-me, que iguais a mim existiram poucos no espaço sideral. Que eu era o último da minha espécie. Que ele estava ali para me proporcionar uma experiência que eu ainda não tinha. Eu disse que estava ouvindo e ele continuou: Já nasceste alguma vez de outro corpo? Saíste alguma vez de um ventre? Eu respondi que não.

Naquele momento muitas dúvidas surgiram na minha combalida mente. Vi-me sempre transformando em seres semelhantes aos que eu via e desejava ser. Espantado, concluí que nunca havia nascido.

O meu interlocutor, diante da minha indecisão e reflexão disse que eu não perderia nada, pois jamais seriam criados impedimentos para eu seguir o caminho que desejasse, apenas queria que eu me submetesse ao nascimento. Disse que eu continuaria imortal e evoluindo com o mundo. Perguntei então porque ele tinha aparecido do nada para me pedir que nascesse. E ele apressadamente disse que era para eu ter mais este aprendizado e que num futuro e eu entenderia.

Acabei concordando, pois não via nenhum caminho mais interessante do que o proposto. Juntos voamos pelo mundo e fui colocado no ventre de uma mulher. Ali entrei num estado de graça. Dormi nove meses.

Então eu nasci e fui crescendo. Porém eu jamais perdi minhas lembranças, durante o sono é o momento que elas mais atacam.

Este sou eu, por enquanto a vida está legal. Caso daqui alguns séculos eu sinta novamente tédio parto para outra existência. Fácil, né?


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