O velho, o moço e o mar

09:50:00


Ele todo respeitoso tirou o chapéu da cabeça e incrédulo disse: “Não acredito”. Depois de oitenta anos ele percebeu que havia ganhado uma chance de ouro para realizar um dos seus inúmeros sonhos.

Aquele sobrinho-neto iria levá-lo ao litoral, ele enfim conheceria o mar. Que satisfação! Seu corpo magro, sua pele enegrecida e o seu rosto encovado pela lida diária eram testemunhas de sua debilidade física, que não alcançava sua jovem alma.

O sobrinho-neto levara roupas e outros objetos para aquele senhor, cuja simplicidade era encantadora. O português era errado, mas adequado. A satisfação no olhar... Aquela coisa de criança ante ao desconhecido era espetacular. Partiram em menos de uma hora.

Eles saíram da pequena chácara e logo estavam na pista, o moço e o tio-avô. Era uma parceria interessante. De repente pareciam pai e filho. Mas o pai era o moço e o filho era o idoso.

Na rodovia tudo era motivo de encanto para aquele senhor. Que satisfação deveria estar sentindo! Ele era um católico fervoroso e a frase que ele mais falava após ver coisas que desconhecia era “Virgi Nossa Mãe”. O moço se divertia.

O destino era o litoral Norte, a viagem seria um pouco mais longa, mas conversa não faltaria, pois aquele homem de oito décadas e dois anos possuía histórias de quilômetros. Ele contava o que tinha acontecido e o moço sentia o cheiro, via as cores e sentia o clima do passado.

O senhor era só agradecimento. Passado um tempo ele começou a contar a história da mãe, que falecera nos seus braços. O moço teve que se segurar para não chorar. Ele falava com tanto amor da velhinha, que ainda morrera quando ele era jovem, que o moço entrou na história. Logo ele parou em um restaurante e a emoção deu um tempo.

Fizeram uma refeição leve. No retorno a estrada o senhorzinho dormiu e o moço ligou o rádio. Escutando Enya prosseguiu a vigem. Na hora de descer a serra ele acordou o idoso, que mais uma vez parecia uma criança, deslumbrado, eufórico e reticente.

O idoso sorriu quando disse ao moço que estava mais surdo do que nunca. Abriu a boca e viu que melhorava. Então pediu licença ao moço e começou a falar versos de cururu, algo que ele fizera muito quando era moço. Em tom poético falou sobre tudo o que via.

Logo chegaram à avenida principal. Antes de irem para a casa de veraneio o moço parou para pisarem na areia da praia. Era grande a ansiedade daquele senhor para fazer um gesto simples, mas que todos nós gostamos de fazer.

O senhor que não usava nem um apoio e que tinha um andar firme, pediu o braço do sobrinho-neto. Ao que pareceu sentiu medo. Caminharam juntos pela areia. Ainda era cedo, mas já tinha bastante atividade na areia.

O ancião comentou baixinho com o moço sobre as roupas das moças e perguntou se era normal elas andarem de calcinha e sutiã. O moço riu e explicou que eram biquínis. Foram até chegar à água.

Ali eles molharam os pés. A água gelada deu “boas vindas”, o senhor deu um gritinho infantil de felicidade e disse “Meu Deus eu não mereço tanto”. Mais uma vez o moço teve que reprimir a emoção que ameaçava o trair novamente.

Na volta até o carro, com promessas do jovem que só iriam até a casa e já retornariam, com direito a porções, sucos e sorvetes o senhor viu uma concha e perguntou o que era aquilo, o sobrinho-neto explicou e o senhor perguntou se poderia levar de recordação o moço abaixou e a pegou para o “vôzinho” que sorrindo abraçou o objeto. Era uma criança de novo.

Eles ficaram três dias na praia, uma sexta, um sábado e um domingo. Foi um final de semana maravilhoso tanto para o moço como para o idoso. A gratidão daquele senhor ensinou muito para aquele jovem, que já possuía o coração bondoso.

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