Uma história de vida

21:18:00


Quem poderá entender racionalmente os caminhos da vida?

Cansada pela caminhada que fizera até aqui ela parou, respirou e me perguntou se eu tinha um minuto para ouvi-la. Queria desabafar e pensou que eu seria um bom ouvinte. Assenti e ela começou a narrar sua história de vida, que agora compartilho com vocês preservando o nome porque é a história de vida de uma amiga.

Ela é morena como um entardecer. É magra e possui olhos inexpressivos. Já é mãe. Porém possui um passado cheio de experiências ruins.

Na infância foi uma criança alegre, que aprontava todas as traquinagens próprias da idade e que ao contrário das outras meninas de sua idade, detestava bonecas dando preferência às brincadeiras que eram classificadas como de meninos. Por sua personalidade forte, levava quase todos os dias uma surra de seu pai, por motivos fúteis, como teimosias infantis.

Brincar com "meninos" significava surra e sermão, era terminantemente proibido, porém ela adorava. Por isso, ela sempre fugia pra soltar pipa com os coleguinhas de sua idade, mas ao ver o pai chegando do trabalho corria para os fundos da chácara e dissimulava.


Ela foi crescendo e vivia sob rigoroso julgo do pai, que era severo e muito religioso. Era proibida de assistir novelas, filmes e seriados que tivessem demonstrações de carinho, como um beijo.


Na época da escola seu pai, mesmo sem muito estudo, olhava seu caderno e suas notas quase todos os dias e se houvesse desempenho insatisfatório ela era castigada. Uma de suas peripécias aconteceu quando ela estava na segunda série. Ela tirou uma nota vermelha na prova de matemática e além de apanhar, teve de ficar até alta madrugada refazendo a prova até que corrigisse todos os erros, com o pai do lado é claro.


A menina entrou na fase da adolescência, despertando interesse em muitos homens (inclusive nesta fase era constantemente abusada pelo vizinho, no qual seu pai confiava plenamente e entregava sua guarda para poder viajar).

Ela atraía olhares, amizades e tinha namoricos, que faziam com que seu pai deixasse a irmã mais nova livre e a enclausurasse. O pai tentou manda-la diversas vezes para um convento, no qual ela sempre se negou a ir. Tinha pavor em ficar sem a prática do sexo.

Aos 14 anos teve seu primeiro namorado em casa. No quarto mês de namoro o pai queria que eles se casassem, mas tal situação para ela era uma tortura, pois não gostava deste namorado para se prender para uma vida toda.

Foi ai que surgiu um antigo amigo da família, que a conhecia desde muito pequena e ofereceu-lhe emprego em seu escritório, tentando fazer com que o pai abrisse o olho para o mundo e deixasse a menina viver.


Com a idade de quinze anos ela foi trabalhar com o amigo de seu pai, que tinha um escritório de advocacia. Era tratada como uma princesa. Ele era seu amigo. Era cheio de mimos para com ela e dizia tê-la como uma filha, colocou-a no mundo da música, levava-a para danceterias mais sempre lhe frisando "tudo o que acontecer entre nós ninguém precisará saber”. Ela sempre achou estranho, que ao chegar no escritório pela manhã, seu protetor lhe pedisse para entrar em sua sala. Logo percebeu que ele queria se aproveitar dela.

Aos 16 anos já vivendo em um mundo totalmente diferente do anterior, mas ainda namorando, conheceu uma pessoa e se apaixonou loucamente, então terminou com o seu namorado, causando polêmica e quanto ao novo relacionamento.


Ela ficou sem saída, estava perdidamente apaixonada. Namorou o novo amor escondido e resolveu se casar.


Nem nos seus piores sonhos ela poderia prever as conseqüências do seu ato. O seu pai queria se matar e o ex-namorado tentou pular da ponte. Ela que estava iniciando como cantora nos bares da vida perdeu patrocínio na carreira artística e um mês após as núpcias também perdeu o emprego sem entender o porquê.


O amor a cegou, levando-a a abandonar tudo o que conseguira. Comenta-se até hoje que ela foi à noiva mais sorridente que existiu.


Morou por dois anos na casa da sogra, que era alcoólatra e que fazia de tudo para o seu casamento não dar certo. Entretanto o seu amor pelo marido sempre foi grande e ela acreditou que superaria todos os desafios.


Aos 19, ela engravidou. Decidiram se mudar da casa da sogra, porque está dizia que não queria choro de criança em sua casa. Foram morar em uma chácara.

Ela agora não se achava mais menina, tinha certeza que virara uma mulher. Estava sempre feliz e com a mãe a tiracolo. Amava sua mãe e a considerava uma verdadeira amiga. Ao seu lado tudo era felicidade, gargalhadas e brincadeiras.


Ela nunca tinha se imaginado sem a mãe. Quando o bebê nasceu, sua orientadora foi à mãe, que sempre sonhará em ter um netinho e que o ficava 24 horas com a filha, a fim de “ajudá-la”.


Tudo estava ótimo, faziam planos, saíam e viviam juntas.


Em uma noite como tantas outras de calor a nova família vai jantar na casa dos avós maternos como de costume. A casa dos seus pais ficava na área urbana. No retorno para a chácara a jovem ouve o marido dizer sem mais nem menos " eu não quero te assustar, mas sinto que sua mãe vai morrer", ela se impressionou com as palavras, mas tentou levar na brincadeira, fazendo uma troça qualquer.


Ao chegar em casa, começa a ligar para casa dos pais, pois sabia que a mãe ficaria sozinha naquela noite, mas não consegue falar com a mãe. Somente no meio da madrugada é que ela recebeu uma ligação na qual ouvia apenas gritos sufocados, que parecia ser de sua irmã dizendo que a mãe tinha morrido. Ela saiu correndo desesperada pensando ser uma brincadeira de mau gosto, mas encontrou o quadro que nem pensava um dia contemplar, sua mãe, que era nova, estava morta diante dos seus olhos.


O mundo desabou literalmente e a alegria da jovem acabou. Com o tempo ela se acostumou com a falta, apesar de não se conformar.


Aos 21 o marido mudou do lar conjugal a trabalho e a deixou por 04 meses sozinha. Cansada da separação ela se muda com ele para ficarem próximos não se importando com as condições de vida, mas sim com a união da família.


Tudo estranho, pessoas e costumes diferentes, mas o amor a movia, ainda era perdidamente apaixonada pelo marido e o amava acima de qualquer dificuldade.


Entretanto um belo dia o marido chega para ela sem mais nem menos e diz que não a ama mais, que não sente mais prazer com ela, que ele era novo e queria viver a vida, sendo que ela e o filho estavam atrapalhando.

Ela estava em um lugar estranho não tinha pra onde ir, além de estar com o bebê nos braços e totalmente desencantada com o casamento. Ela volta pra casa do pai.

Passada uma semana o marido volta atrás e diz que a ama, que tinha falado besteira e confundido os seus sentimentos.


Ela sente neste momento que ele matou o amor que sentia. Decide fazer uma nova tentativa, mas envolto por freqüentes discussões o casamento naufraga.

Nesta época o tio do marido, que se dizia pai dele, ao ver sua carência e o modo como o sobrinho a tratava a convida para fugir com ele dizendo: vamos menina? A gente compra uma casa no nordeste, leva o bebê junto, você é bonita e não merece viver levando coice pelo menos eu tenho condições de te dar uma vida de rainha.


Com o coração apertado de angústia ela recusa esta idéia maluca. Novamente eles mudam de cidade. Ela sente tédio. Sente como se fosse uma criança que não ganhou balas do papai-noel. Nesta época eu venho a conhecê-la. Ela tinha só vinte e três anos. Sem mais nem menos um dia ela me conta sua história. Com sua autorização eu publico e torço para que ela seja novamente feliz.

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