“Requiescat in pace”,

13:44:00


Todos sabem que os animais se comunicam, ainda que não falem com palavras eles fazem gestos, latem e abanam o rabo (quando ainda não foi cortado).

Há muito tempo atrás, em um entardecer eu fazia uma caminhada rotineira em volta de uma lagoa existente em um parque público, quando notei dois cachorros sentados um de frente para o outro, nas margens da lagoa.

A lagoa não é muito grande, tem a forma de um ovo e um gramado enorme em sua volta. A cena me chamou a atenção e resolvi me aproximar a fim de observá-los melhor.

Ao lado dos cachorros pude perceber que os dois eram bastante parecidos, eram brancos e pretos e possuíam machas na cor caramelo em tornos dos olhos. Não eram muito grandes, diria eu que eram da raça Fox Paulistinha. A única diferença é que um era mais gordo que o outro. O gordo parecia mais novo do que o magricela.

Cheguei de mansinho e como estava com um mp4 escutando música, voltei o olhar para frente e fiquei um tempo contemplando o crepúsculo vespertino.

De repente eu retirei os fones do ouvido, pois notei que os cachorrinhos se abaixaram como se fossem esfinges e chegaram mais próximos um do outro.

Comecei neste instante a escutar um “monólogo” mudo. O magro dizia o quanto gostaria de poder voltar a nadar naquela lagoa e correr atrás de uma bolinha de tênis, havia na sua “fala” uma grande nostalgia.

Continuou dizendo que tudo havia mudado e ele não sabia o porquê. Disse que o seu dono havia ido embora de casa, que não conseguia mais fugir por entre as grades do portão e que também sentia falta de ar.

Nesse momento o cachorro mais gordo chegou próximo e mordiscou a orelha do magricela, como se quisesse fazer carinho. O magricela fez de conta que nem havia percebido o toque e continuou a “falar” mudamente, falou sobre sua infância, a separação dos pais e a sua adoção por aquela nova família, disse que não sabia quantos anos tinha, mas que gostaria de voltar a se sentir forte.

Então comecei a entender, aquele cachorrinho magro estava morrendo, mas ele não sabia e com certeza o cachorro gordo era seu amigo e da sua raça, daí o entendimento e o fato de ser um bom ouvinte.

Durante bastante tempo fiquei ali parado a ouvir aquele diálogo entre cachorros. É como se eu tivesse abaixado a minha freqüência mental e conseguisse me entender com eles. Não ousei a lançar um pensamento na direção dos caninos, fiquei com medo de espantá-los.

Eu me comovi com a decadência física do cachorrinho magro, pensei naquele momento na existência humana. No prazo de validade dos corpos, das situações boas e ruins, da vida em geral.

Naquele devaneio acabei ficando com o olhar fixo no nada. Saí desta espécie de transe por um latido agudo. A noite já havia caído, as estrela ponteava o horizonte. Ao meu lado o cachorro magro estava deitado e o cachorro gordo me encarava. O magro estava deitado de lado, imóvel. Cutuquei sua cabecinha, mas ele não se mexeu, estava morto.

Sentindo uma imensa pena do bichano, fui até o meu carro onde havia alguns brinquedos de praia do me filho, dentre eles uma pazinha. Voltei, tirei a minha camisa, enrolei o cachorrinho e cavei uma cova rasa, bem do lado da margem da lagoa. Enterrei ali o corpinho frágil daquele desconhecido au-au.

Não deixei de sentir um nó na garganta imaginando quantas vezes ele havia alegrado um lar, uma criança e um vizinho. Agora estava acabado para sempre. Um desconhecido o enterrava e o seu pequeno amigo o olhava sem nenhuma lágrima para derramar, não por falta de amor, mas por ser fisiologicamente impossível.

Acabando o serviço, lembrei-me de uma frase em latim, que há muito tempo havia escutado em uma aula de direito “Requiescat in pace” (descanse em paz). Saí cabisbaixo pensado em tudo o que acabará de acontecer.

Na rua do parque, próximo ao meu veículo o cachorro gordo que caminhava ao meu lado lambeu a minha perna e eu lhe afaguei a cabeça. Logo em seguida entrei no meu automóvel e ele foi trotando pela calçada em direção oposta.

Muito tempo já se passou daquele dia. Jamais voltei a ver o cachorro gordo, mas até hoje volto na pequena sepultura do cachorrinho magricela. Estabeleci com ele uma espécie de empatia, mesmo sem nunca tê-lo visto antes daquele dia...
Hoje, quando alguém está muito doente sempre lembro daquele cachorrinho que nem seu nome descobri, mas que aprendi a gostar depois de sua morte. Até hoje eu fantasio as aventuras que ele teve...e sobre quem fora o seu dono, que com certeza após ter crescido abandonou o amigo da infância!

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