Lula: o adeus ou o até logo de um mito?

23:43:00


Na despedida as qualidades são exaltadas, as virtudes comentadas e os acertos congratulados. Os detalhes ficarão relegados ao subsolo da memória, agora é hora da cordialidade, das gentilezas do adeus público ou de um até logo a um mito, que sai da presidência da República como fenômeno em tudo, inclusive em aprovação popular.

Fico pensando em quantos artigos já foram escritos sobre o presidente Lula, sobre a figura particular e pública de Luiz Inácio Lula da Silva e sobre seus feitos. A sua história já foi narrada milhares de vezes, foi tese de doutorado, livro e depois filme. O nome dado ao filme, sobretudo, foi muito apropriado, pois realmente Lula é um filho do Brasil, que jamais negou suas origens.

Um menino, irmão de muitos, pobre, daqueles que teriam se existisse na sua época, direito ao programa bolsa família e a outros programas sociais. Quanta privação passou quando criança, mas para ele era normal, como é normal para toda criança pobre levar a vida sem luxos, pois ser pobre não é doença ou nostalgia é circunstância que não se escolhe, que se assimila e com a qual se apreende a conviver.

Lula aos sete anos vendia laranja no cais para ajudar a família no complemento da renda familiar, será que algum cliente que adquiriu suas laranjas em troca de míseros dinheiros poderia imaginar que estava diante do futuro presidente do Brasil? E que este menino andaria na carruagem real com a rainha da Inglaterra, que seria este menino, que mais tarde presidente da República iria conseguir com seu prestígio trazer a realização de outra copa do mundo de futebol para o país? Que seria abraçado no mundo como um ícone, que faria muito por pessoas miseráveis, abaixo da linha da pobreza e que transitaria com sucesso em todos os países do mundo?

O jeito carismático, bonachão, a língua “presa”, o jeito fácil de comunicador encantou desde cedo, Lula não escolheu ser líder, ele foi escolhido líder e esta é a maior característica dos grandes homens, já nascem diferenciados, são seguidos e adorados.

O diploma universitário, o saber burocrático, os anos de escola, os livros lidos e as teses defendidas podem tornar um ser humano capacitado para qualquer cargo público, mas não é possível dizer que isso seja imprescindível e que apenas isso basta para o sucesso de um gestor, uma vez que é preciso sabedoria, ser iluminado e acima de tudo ser protegido no mundo material e no mundo espiritual e tudo isso o presidente Lula é e sempre foi.

Um brasileiro que tinha tudo para ser mais um entre milhões de desfavorecidos à margem da sociedade. Com certeza adormeceu muitas vezes sonhando com coisas básicas que lhe foram negadas, nem sequer um pai ele teve e a mãe que sempre foi um ídolo morreu antes de vê-lo como um legítimo vencedor, vivendo seus mais altos sonhos e sendo aplaudido em pé por multidões entusiasmadas com seus discursos improvisados, que tinham muito mais do coração do que frases prontas.

Lula, no dia 24 de abril de 1969 foi eleito representante dos trabalhadores da Villares, entrava, sob protesto da sua noiva, na vida política. No dia 24 de maio de 1969 casou-se com Maria de Lourdes Ribeiro, sonhava em ter uma família e ser pai, algo que nunca tivera em sua vida enquanto filho. Logo Maria de Lourdes engravidou e as coisas pareciam encaminhadas para a felicidade. Porém, o sonho tornou-se pesadelo, pois no dia 07 de junho de 1971, aos sete meses de gravidez internada com problemas de saúde veio a falecer; morreu Maria de Lourdes Ribeiro da Silva e o bebê, um menino que foi retirado a fórceps do útero sem vida. Lula no velório apontava para os dois caixões, o da esposa e o do filho e falava, aqui está a minha família.

A primeira mulher de Lula morreu aos 22 anos, humilde, sem cuidados médicos, faleceu por negligência médica, segundo crença do próprio Lula, que jamais a esqueceu, poderia ter sido um golpe fatal para qualquer homem, mas Lula não ficou muito tempo no chão, ergueu-se e cuidou da vida.

No ano de 1974, Lula teve uma filha com uma namorada, neste mesmo ano casou-se pela segunda vez, agora com Marisa Letícia, que era viúva e com esta moça viveu a segunda parte da sua história de amor, adotou um filho que era dela com o falecido marido e com ela teve outros três.

Em 1980, preso por ser um dos líderes de uma grande greve de trabalhadores do ABC recebeu outro duro golpe, a sua mãe, que ele tanto amava, morreu de câncer aos sessenta e cinco anos. Com a liberação do Delegado Romeu Tuma Lula conseguiu ir ao velório e deu adeus para a mãe algemado.

O tempo passava e Lula tornava-se um político respeitado, participou de diversos movimentos em prol da democracia até chegar a ser candidato a presidente da República em 1989, com chances de ser eleito, mas segundo teorias de conspiração não comprovadas, a mídia o derrubou.

No ano de 1994 tentou novamente chegar ao Palácio da Alvorada, foi derrotado ainda no primeiro turno. Ele continuava sendo oposição ferrenha ao governo, as suas idéias eram radicais, continuava com esperança e lutando por mudanças. No ano de 1998 perdeu outra eleição para presidente, começava a se cansar da busca pelo cargo mais alto do executivo.

Em 2002, no dia do seu aniversário, dia 27 de outubro, aos 57 anos, menos radical em suas posições políticas Lula venceu as eleições presidenciais, na sua quarta tentativa.

No início de 2003, na sua posse estiveram presentes muitas autoridades ilustres, inclusive o presidente cubano, Fidel Castro. Os protocolos foram quebrados em todos os lugares, no congresso os presentes gritavam “olé olé olê olá Lula Lula”.

Lula demonstrando grande consideração pela ex-sogra, a mãe de Maria de Lourdes Ribeiro da Silva, a convidou para a sua posse, sendo que a senhora depois disse que imaginou a filha, morta tão jovem, acenando como se fosse ela a primeira-dama.


Nesta primeira posse Lula discursou no congresso e disse uma frase de impacto “se ao final do meu mandato todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar terei cumprido a missão da minha vida”.

O tempo passou e Lula foi se transformando em um líder internacional, a sua biografia chegava antes dele nos países em que ele ia visitar, foi ganhando corações e o respeito de outros líderes, tornou-se maior do que o partido dos trabalhadores.

Em 2006, Lula foi outra vez eleito presidente da República, o sonho e a perseverança teriam outros capítulos. Neste segundo mandato ele estava mais experiente, viajava pelo mundo esbanjando energia e bom humor, enquanto a sua equipe técnica trabalhava.

A caminhada prosseguiu, Lula conseguiu eleger sua sucessora, o sonho por mais belo que tenha sido está acabando, Lula vai deixar de ser presidente da República e esta discussão tem tomado tempo de muita gente, mas o que deveria ser colocado como argumento é que Lula não é comum, tem força para se adaptar em qualquer situação e agora não vai ser diferente, quer ele esteja na África ou em São Bernardo, será o Lula que todos se acostumaram a ver.

É bem verdade que talvez Lula tenha cometido algumas gafes, tenha parecido em algumas oportunidades inculto e despachado demasiadamente em outras. De repente ele nem tenha conseguido garantir três refeições para os pobres, mas ninguém pode negar que, independente de convicção filosófica ou ideologia partidária, Lula tornou-se um mito.

O governo Lula teve muitos momentos vexatórios, como foi o caso do mensalão, mas ele conseguiu ser maior do que isso tudo, conseguiu ficar intocável, o povo o adora e o releva, pois se identifica com ele, as histórias de superação de momentos trágicos são iguais a de milhões de brasileiros, o presidente Lula poderia ser o tiozinho do bar da esquina, seu avô ou um feirante bondoso.

Lula teve acompanhamento psicológico para se adaptar à função de presidente e também agora para deixar a função, conseguiu conciliar o tratamento garboso de “sua excelência” com o apelido jocoso de “baiano”, a primeira forma de se dirigir a ele era dos homens cultos e formais do seu cotidiano e a segunda maneira era e vai continuar sendo dos seus amigos, muitos deles com amizades começadas quando ele ainda tinha os dez dedos das mãos.

Enfim, o menino nordestino, pobre, sem pai, que vendeu laranja no cais, que tinha roupas puídas, que sonhou em ter uma família e na primeira tentativa o destino lhe pregou uma peça, que tentou tantas coisas tantas vezes até dar certo, é um exemplo de superação, merece ser aplaudido em pé, por oposição ou situação. Lula vai ser indicado ao prêmio Nobel da paz em 2011, pode ser que em janeiro seja o adeus do mito ou um até logo. De qualquer forma, muito obrigado presidente Lula por ser um exemplo de que não importa o tamanho do sonho ele sempre será possível.

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