Cadê meu ovo?

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Cansada da rotina. Cansada do serviço e de ter que almoçar no restaurante da empresa a moça suspirava várias vezes ao dia. Estava um pouco infeliz com o mundo. Mas, resignada prosseguia sem muito alento.

Entretanto, como em toda situação difícil pode existir um agravante, um estopim, um pingo a mais e um estouro, isso se sucedeu e a moça fez uma coisa tragicômica, que seria engraçada se não tivesse sido o motivo de sua demissão involuntária da empresa.

Em um determinado dia da semana, por volta das onze horas da manhã ela foi almoçar. Lá chegando notou que a mistura que tinha não era do seu agrado, pediu então para a cozinheira um ovo frito. Ah! Se arrependimento matasse. Ela teria morrido.

A cozinheira atarefada com muitos pedidos e com a reposição de pratos acabou se esquecendo do ovo frito da moça, que se impacientou com a demora. Foi comendo o arroz e o feijão sem o ovo frito.

Quando a moça acabou de almoçar estava muito brava, histérica, estava com ira, na verdade não era por conta do ovo frito, era por conta da vida entediada que estava levando. Era a falta de um amor, a frustração profissional e a sua própria ingratidão. Levantou-se da mesa, onde acabara de almoçar sozinha, pegou a bandeja, que era de plástico e foi até a cozinha, precisava, em sua mente acometida de uma insanidade temporária, dar uma lição na cozinheira.

Ao chegar à porta da cozinha ela chamou a cozinheira pelo nome, chamou gritando assim: “Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, cadê você? Apareça! Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaaaa, cadê você?

A cozinheira sentiu um frio na espinha quando ouviu seu nome “entoado” e correu para a porta da cozinha. Nesse momento muitas pessoas se serviam da comida. Todo mundo parou. A cozinheira ao chegar à frente da moça tomou na cabeça a primeira bandejada.

A cozinheira falava arrastado, era pequena e ficou muito assustada com aquela “sova” que estava levando, só repetia “ o que é isso?” Ploft! Outra vez a bandeja descia em sua cabeça.

No instinto de sobrevivência a cozinheira saiu correndo pelo salão, por entre as mesas e a moça em transe atrás dela com a bandeja na mão. Até que o pessoal "do deixa disso" apareceu e conteve a moça raivosa, da sua boca um filete de saliva escorria e ela repetia: “Cadê o meu ovo? Cadê o meu ovo? Cadê o meu ovo?”.

A moça foi demitida, lhe recomendaram um psiquiatra. A cozinheira demitiu-se, não suportou a vergonha de ter apanhado com uma bandeja de plástico, como se fosse um cão sarnento, só porque se esquecera de fritar um ovo. Ela por muitas noites acordou com a voz da moça dizendo: “Cadê o meu ovo?”. Acordava no meio do pesadelo esperando a bandeja imaginária descer, bandeja que causou mais dor moral do que física.

Com o tempo a cozinheira voltou para o Norte, sua terra natal, havia conseguido parar de sonhar com a moça da bandeja e conseguiu também perdoá-la.

A moça raivosa nunca mais foi vista, alguns dizem que foi internada em um manicômio, onde afirmaram que já foi visto imitando uma galinha, cacarejando e comendo no chão.

Quem saberá o que disso tudo é verdade? Na dúvida se você for cozinheira não se esqueça de fritar o ovo pedido e se você for o solicitante do ovo não se esqueça de ficar calmo caso ele não venha. É melhor deixar para lá a mistura ou reclamar com educação. Ter um dia de fúria por causa de uma clara e de uma gema é um exagero.

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