O reencontro (homenagem aos eternos namorados)

10:23:00

Ele era um menino pobre. Ela era de classe média. Ambos eram bonitos e começaram o que se pode chamar de “primeiro amor”, como anos mais tarde ela o classificaria.

Estudaram no mesmo colégio público durante todo o ensino fundamental e ali surgiu um amor verdadeiro, que ele caprichosamente “fez” de tudo para não preservar, mas do qual sentiria muitas saudades anos mais tarde.

Era uma época de total submissão aos pais, de catecismo, de missas aos domingos de manhã e de pequenas baladinhas em garagens.

O romance começou de maneira inesperada. Numa noite qualquer de um mês qualquer em um encontro casual de final de semana. Ele jamais esqueceria a data, mas não a revelaria tão fácil. Ele tinha ciúmes de tudo que guardasse relação com ela.

Eles começaram a se encontrar todos os dias na escola e algumas noites, que furtivamente ela conseguia um breve “alvará” da mãe. Trocavam beijos encostados em muros de casas. De vez em quando iam a um cinema ou a uma festinha de aniversário. Conversavam muito ao telefone. Ele não tinha linha na sua casa, mas tinha um telefone público bem na frente da sua residência. Naquela época os telefones públicos eram movidos por fichas do tamanho de uma moeda.

Chegaram a usar alianças de compromisso, sem contudo entender o significado da palavra compromisso. Ele a amava e sentia que ela também o amava. Ele fazia verdadeiros passeios com ela, por caminhos longos, mas tudo estava bem, pois tinham tempo e nenhuma preocupação. Desejavam uma praça qualquer, onde eles pudessem sentar-se enroscando as pernas.

Por muito tempo chegaram a ter só “olhos” um para o outro, mas a época era de muitas descobertas e eles não seguraram a barra. A última vez que eles se falaram ela tinha quatorze anos e ele tinha quinze.

Os anos correram. Ambos se graduaram. Constituíram famílias. Ficaram ricos e competentes em suas profissões. Ela o esqueceu completamente, mas ele não a esqueceu. Ele aprendeu a viver sem aquela figura de rosto angelical, mas acabou por idealizá-la. As virtudes da menina, aos seus olhos, foram crescendo em uma progressão geométrica e após trinta anos ela era para ele uma pequena deusa.

Mas, como a lei da atração prega que tudo aquilo que você deseja um dia acaba conseguindo, ele desejava outra vez vê-la e poder abraçá-la, beijá-la e sorrir como há muito havia feito. Todavia nunca a procurou, nem por isso a vida lhe negou a satisfação deste desejo.

Em um dado final de ano o encontro, outra vez casual, aconteceu.

Ele com a sua família e ela com a família dela resolveram ir passar a virada de ano velho para o novo no mesmo local. Foram para uma badalada praia do litoral paulista. Ele ficou em uma casa na mesma rua da casa em que ela estava.

Ela chegou na praia em uma quinta-feira. Ele chegou na sexta-feira. No domingo o destino os uniu.

Ele saiu para caminhar antes do sol nascer e para o seu espanto quando estava passando por uma casa ouviu o portão eletrônico desta se abrir. Ele continuou a caminhar, mas até pelo instinto de preservação ele olhou na direção do barulho. Seu coração quase parou.

Imediatamente os olhos se cruzaram e ele ficou parado esperando ela se aproximar dele. No primeiro momento ela não ligou aquele rosto a um nome específico, sentiu até medo, mas depois de um momento a lembrança veio a mente ela o cumprimentou educadamente.

Ele como se estivesse na frente de uma velha amiga deu lhe um forte abraço e disse as frases clichês: “quanto tempo”, “nossa, como você está bonita”, “como tem passado?”.

Ela ficou pouco a vontade, mas respondeu todas as perguntas dele polidamente. E ele perguntou aonde ela ia, ela disse que ia caminhar e ele sem esperar convite disse que iria junto.

Caminharam por umas duas horas, conversando sobre muitas coisas. Ela se soltou e por vezes ficava vermelha com os elogios que ele tecia. Ela tentou fugir dos assuntos que tivesse conotação muito sentimental, mas ele parecia não perceber. Abriu o seu coração e declarou o seu amor e toda a sua devoção guardada por três décadas. Sentia-se radiante.

Na volta do longo percurso que fizeram ele segurou a mão dela entre as suas e levou a boca dando um beijo apaixonado, ela nada fez para tirar a sua mão do meio das dele. Passado alguns instante ele pediu um beijo. Ela se aproximou dele e o beijou ternamente. Ele sentia que todo o tempo de espera por ela tinha valido a pena.

Depois do beijo ela pediu que ele partisse, que não mais a procurasse, que o passado tinha ficado lá e que já haviam vívido mais duas vidas após o breve tempo que foram um para o outro o “primeiro amor”.

Ele concordou, ainda deu o último abraço na sua amada e partiu para casa, onde os filhos e a mulher o esperavam para irem mais um dia aproveitar o sol, o calor e o mar.

No retorno até a casa de veraneio ele foi lembrando os instantes recentes que havia passado ao lado daquela mulher que estava mais presente em sua mente do que qualquer um da sua família e achou graça na incoerência dos seus sentimentos.

Foi a última vez que se encontraram. Ela morreu no mês de maio daquele ano, em um terrível acidente que envolveu seu carro. Ele não ficou sabendo, continuou fantasiando e sonhando com a menina do início da sua adolescência.

Os anos correram, e ele também morreu. Após exatos vinte e cinco anos daquele fatídico domingo, um derrame cerebral o levou rápido e sem dores prolongadas. A família dele entrou o ano novo em luto.
Ele deixou três filhos e a esposa. Nenhuma linha sobre o seu segredo, a sua maior dor, seu maior amor, a menina de rosto angelical, que um dia sorrindo havia confessado, sussurrando para ele, que o amaria para sempre.

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