Discurso de um escravo

22:02:00



Brasil, 13 de maio de 1888*.


Bom dia, meus amigos! Disseram que estamos livres, que agora não somos mais escravos, que não trabalharemos mais por comida, que não sofreremos humilhações, que não seremos chicoteados e nem tratados como coisas.

Segundo disseram, uma princesa, como nos contos de fadas, libertou-nos, e agora é só partir para a felicidade. A cor de nossa pele não será mais associada a menosprezo, a pouca valia e ao desrespeito.

Ouvi que fomos elevados à condição de pessoas, que nosso labor terá de ser contratado e que receberemos dinheiro, terras ou qualquer outro produto em troca das horas que ficarmos sob o olhar atento e furioso do sol.

Nossos filhos, como afirmam, agora ficarão no colo de suas mães. Disseram que agora respeitarão a Lei do Ventre Livre, embora, desde 1871, ela já esteja em vigor neste mundo cada vez menos mundo.

Olho para vocês e vejo desnutrição, dores em seus gemidos e desalento. Os nobres esqueceram que temos sangue, órgãos e que nossas juntas também envelhecem. (Neste momento, o escravo começa a chorar, mas, sem mudar o tom de voz, continua a falar.) Mas tudo bem, hoje estou feliz, acho que renascemos, e uma felicidade sem tamanho brota em meu peito.

Acredito que precisamos esquecer toda a tristeza que paira sobre nossas cabeças. Nossos antepassados, os navios, os grilhões, as mães que choraram amargamente e que amaldiçoaram os próprios ventres, as cicatrizes que lembram feridas, tudo isso deve ser testemunho do que padecemos.

Eu sei que não temos para onde ir. Bem sei que não temos o que dar de comer para nossos filhos. Eu sei que temos medos e que muitos dizem que deveríamos continuar escravos.

Meus amigos, não somos mais escravos, e a morte não nos abraçará de maneira covarde. Vamos nos levantar; o ato de ficarmos prostrados só demonstrará que realmente não merecíamos a liberdade.

Roguemos bênçãos a todos os que nos desprezaram e que ignoraram nosso frio no inverno e nossas dificuldades no verão. Vamos sorrir e contrastar a opinião daqueles que desejam nossa desgraça. Somos muito fortes e vamos provar isso.

Hoje não buscaremos aprovação do branco ou tampouco dos negros que nos traem e ficam do lado de nossos algozes. Hoje somos mais nós. A construção do futuro depende de nós, assim como esse momento que agora vivemos dependeu de nossos pais.

A verdade é que a realidade é uma ilusão. Porém eu prefiro a ilusão de agora muito mais do que a de ontem. Um dia falarão de nós e contarão aos filhos dos filhos negros a coragem que tivemos para enfrentar tudo e todos. Muitos sentirão orgulho do que fizemos.

Eu não acredito que haverá igualdade, cordialidade e um lugar ao lado do branco neste século, mas no futuro com certeza teremos igualdade em tudo, e muitos negros serão ricos, com camas confortáveis, carros de bois e muitas criações em suas fazendas.

Um dia o negro será cumprimentado com alegria e consideração, será juiz de Direito, dono de banco e de navios, e esses navios transportarão coisas de verdade, e não gente como coisas. Eu acredito que um dia todo o sangue derramado, toda a separação familiar e toda a ordem de violência que sofremos serão contados, e seremos, então, aplaudidos em pé pelos filhos dos filhos brancos, que se envergonharão do que seus antepassados fizeram.

Eu reuni vocês para pedir que me sigam. Vou para onde o meu nariz apontar e onde eu achar que devo parar. Vou construir um canto e ali vou morar. Caso eu esteja só com minha família, seremos fracos, mas com vocês seremos muitos e também fortes.

Eu acredito que temos futuro e que não dependemos de migalha. Eu vou, peço que me sigam, rumo à consagração de nossa vitória e para a honra de nossos mortos e a dignidade de nossos filhos. Obrigado e boa sorte para quem fica! (O escravo para de falar, vira as costas e começa a caminhar; muitos o seguem. No dia seguinte, todos estão mortos, pois foram vítimas de uma emboscada, mas ficou a história de dignidade, que depende muito mais de uma postura do que de quaisquer outras coisas.)

* Este discurso não aconteceu, foi apenas por mim imaginado, mas bem que poderia ter sido proferido no dia 13 de maio de 1888, talvez com outras palavras, mas com os mesmos sentimentos.

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