A morte de um desgraçado

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Um desgraçado ia pela estrada e carregava consigo apenas o seu corpo. A sua expressão era triste. Abandonado pelo mundo, invisível, sem família, desejava a morte. A sua idade era pouca, mas a sua expressão, o seu desalinho e a falta de esperança faziam dele uma pessoa com aparência envelhecida.
O homem que caminhava sem destino era órfão. Ele nascera em uma casa humilde,... e os seus sonhos nunca foram dourados. A sua inteligência era normal, mas a sua tristeza era enorme. Crescera sem carinho, ajudado por famílias desconhecidas. Nem sequer se lembrava de todas as casas que lhe deram pensão.
Os abraços nunca lhe foram entregues, os afagos na sua face nunca ocorreram e nunca alguém havia lhe olhado com um brilho nos olhos, seja de admiração, seja de afeto. A vida seguiu, mas ele já não se importava mais com ela.
Ele sentia uma vontade enorme de dizer adeus ao mundo, mas não pensava em suicídio, pois tinha medo do que poderia ocorrer caso houvesse inferno. Certa vez, um cristão havia aterrorizado o pobre homem, pregando-lhe sobre a conversão. Dissera que, se ele não se convertesse ao cristianismo, iria direto para o diabo e que o suicídio era a passagem direta para o fogo eterno.
Em seu peito não havia dor, e a indiferença não o ameaçava mais, nem a poeira daquela estrada, sobre a qual ele agora caminhava, o incomodava. A sua boca estava seca, e o seu estômago reclamava por alimento. A sua barba estava por fazer, e a camiseta, que um dia fora branca, estava amarelada. A calça puída nem chegava até os seus pés, que calçavam chinelos com furos.
A pele branca do andarilho estava vermelha pelo excesso do sol, mas, mesmo assim, os seus passos eram firmes, ainda que lentos. Ele não tinha pressa, pois ninguém o esperava. Em pleno século XIX, as carroças iam e vinham. Algumas carruagens ou apenas cavalos montados passavam pelo desgraçado.
Em dada curva do caminho, houve o acidente. Um belo cavalo branco, em um trote intenso, guiado por uma rica fazendeira daquela região, não enxergou o desgraçado e o atropelou. O garanhão pisou no andarilho, e o próprio cavalo acabou caindo também e se machucando. A mulher, muito assustada, foi igualmente arremessada ao solo. Usava calças de veludo, botas, camisa, e seus cabelos loiros estavam trançados.
O desgraçado experimentou imensa dor, ao sentir seus ossos quebrados furarem sua carne. A mulher correu até o homem esquecido pela vida, sentou-se no chão, colocou a cabeça do poeirento andarilho em seu colo e começou a chorar, pois percebera pelo filete de sangue que escorria pela boca do agora moribundo desconhecido o seguinte decreto: a morte.
E assim partiu um homem que nunca soube, enquanto vivo, porque havia nascido. Em vida, fora-lhe negado afeto, mas a moça que o matou deu-lhe carinho, o colo quente e a libertação das suas dores. A mulher, tomada de imensa culpa, sepultou-o na fazenda, sob uma mangueira, e escreveu em uma lápide de mármore: “Descanse em paz e perdoe-me por lhe ter roubado a vida. Se eu pudesse, restituía-lhe com a minha própria”.

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1 comentários

  1. Vou fazer uma pergunta o que condena o homem
    mesmo antes de ele dar o primeiro suspiro de
    vida?
    O Problema das pessoas é que acreditam em um
    livro como sendo a verdade universal, pare, leia
    os outros livros que falam da historia de verdade
    leia uma enciclopédia ou outro livro com valor
    histórico não um único mais vários,o problema que
    as pessoas não tem tempo para ficar lendo.
    Sabe qual o verdadeiro mal da humanidade é a
    ignorância.

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